Valores Inversos
Estávamos à saída do elevador da escola, conversando animadamente e cercados pelo ruidoso alvoroço que os demais alunos faziam pelos corredores. Terminara a aula do período matutino e a movimentação dos alunos rumo ao portão principal com saída para a rua assemelhava-se ao tráfego intenso de um formigueiro.
- E ae, você também foi convidado para a festa da Júlia? – Perguntei, enquanto procurava na mochila o celular, e seguia andando.
- Claro, se duvidar fui o primeiro. Você sabe que ela é “gamadona” por mim, né?
- Hum... É, pode ser. - Disse pensativo, refletindo na verdadeira razão por Júlia ter tanto interesse pelo meu amigo. Eu acreditava que ela era interesseira, e o fato dele ser bem de vida era o motivo dos interesses dela. – E você? “Caidaço” na dela?
- Você tá me “zuando”!? – Riu-se ele, com cara de deboche. –Cara, vou só curtir, nada sério.
Júlia não era uma garota das mais bonitas, nem das mais populares. Mas era o tipo gostosa, que qualquer cara sempre estaria cobiçando. Estilo patricinha, não se misturava muito, sempre cercada pelas mesmas amigas, que ostentavam mais do que realmente tinham. Loira e com lindos olhos azuis, evitava se relacionar amistosamente com a maioria dos alunos; mesmo os da sala dela.
Confesso que mesmo sendo assediado por algumas meninas, - algumas mesmo mais belas do que Júlia- era por ela que minha cabeça girava. Suas futilidades me incomodavam, era frívola em seus valores e mesmo assim de forma ilógica não a tirava dos meus pensamentos.
Houve umas ocasiões em que cheguei a nutrir esperanças de que pudesse vir a ter algo entre nós. Um pressentimento, que como o vento se dissipava tão logo havia se formado.
Meu amigo era muito popular na escola, mas não por suas notas; rodara ano passado, e transferido por seus pais para cá, que apostavam na minha companhia para motiva-lo a estudar. Conforme íamos andando, era assediado principalmente por algumas meninas, e sempre saudava cordialmente a todos.
Oh, acho que ela tem uma queda por você também, - disse ele. – Já a peguei te olhando umas vezes. Porque você não chega junto?
- Pode ser... Ela simpatiza comigo, mas... Não sou do tipo dela, você entende né?
- Cara você é certinho! Não chega a ser um nerd, nem cdf, mas acho que ela só ficaria contigo se fosse pra casarem! – Disse ele, rindo e me dando um empurrão no ombro esquerdo. – O lance é curtir, ficar, sem pressão!
O agito era total na festa. O som alto com um DJ mandando ver e a pista de dança lotada, a animação era geral! Não faltavam bebidas, e as garotas pareciam em maior número.
Assim foi por toda a noite. Estendeu-se madrugada afora e via-se de tudo ao redor. Uns caídos pelos cantos, bêbados, outros em “amassos” quase pornôs. Havia gente nua na piscina e não faltava o forte cheiro de álcool e vômito por toda a parte.
Era hora de ”puxar o barco”, já tinha curtido o suficiente por aquela noite; ficara com cinco meninas e nem mesmo soube o nome delas, bebí além da minha cota de segurança e rí a ficar com dores no abdômen. Não fazia sentido me despedir, estavam todos “altos” demais para se darem a essas formalidades. Apenas me retirei.
Nem mesmo me daria ao trabalho de procurar pelo meu amigo, ele de certo seria um dos últimos a sair; isso se saísse. Julia não largou do pé dele a festa toda, tentando acompanha-lo em tudo que fazia. Como podia ser tão patética?
Na última vez que o vi, estava urinando numas das paredes da cozinha. – Cadê a Júlia? – Perguntei, enquanto ele se esforçava em manter o equilíbrio e molhava tudo ao redor.
- Ahh! Ela não quis se aliviar aqui – disse às gargalhadas- foi no banheiro, tá “chapadona”!
Atravessei a sala de jantar para sair pelos fundos, passei à porta de um quarto que ficava no corredor e à vista da porta escancarada e do barulho que veio do seu interior, parei por uns segundos.
Em meu retorno solitário para casa, a visão que tivera naqueles poucos segundos que olhei para dentro do quarto, ainda martelava em minha mente. Se por um lado chocante, por outra libertadora.
Eu sempre me perguntava como poderia gostar de Julia? Ela diferia de mim em tudo; modos, valores morais, ética, caráter, etc. E mesmo assim não a tirava da cabeça, não havia como. Por vezes achei que estivesse enfeitiçado ou com alguma obsessão compulsiva, que precisaria de ajuda para tira-la dos meus pensamentos.
Vê-la nua na cama, bêbada, sendo usada por cinco homens foi no entanto o suficiente para curar-me definitivamente.
Nos dias seguintes tudo voltou ao normal, e não se falava outra coisa na escola que não da dita festa. Já estavam planejando quando fariam a próxima, e na casa de quem seria desta vez.
Para Julia as coisas não voltaram simplesmente ao normal. Sua performance era um dos temas mais destacado quando se falavam das loucuras que rolou na festa. O vídeo feito por três celulares e que circulava na rede internacional de computadores desfazia qualquer dúvida sobre a veracidade dessa história.
Ela que nunca prezara as verdadeiras amizades, sempre se cercando a outras pessoas por interesses mesquinhos, e tentando chamar a atenção a todo custo, enfim parece ter conseguido o que sempre quisera. Era a mais falada da escola, da cidade, com repercussão internacional e os caras mais “boas pinta” da escola passaram a rodeá-la feito abutres.



História muito interessante.
ResponderExcluirGostei do texto...
Apesar disso ser comum; sempre choca.
ResponderExcluirGostei do texto...
Abraços a todos