Sombras do Medo
Estavam já há dois dias sem jogar bola, e não se entenderam em fazer uma vaquinha para comprar uma bola nova. A situação era preocupante, Faísca cogitara em vender umas cópias de CD, com alguns dos seus jogos mais novos. Mas ainda não teriam o suficiente.
A providência lhes vinha a caminho; embora por um tortuoso caminho, mas prestes a atender às suas necessidades.
No ócio daquele dia, Goiaba estava prestes a fazer o que lhe fizera jus ao apelido; subir numa goiabeira e se empanturrar até cansar de comer goiabas.
Com ele estavam Zé, Dunga e Potter; todos ávidos pelas goiabas. Eram como lagartas; comiam todas! Mesmo as verdes! Iam até os galhos mais altos se preciso fosse, não faziam estoques; iam pegando e comendo, e nesse ritmo só paravam quando se cansavam. Mas geralmente bem antes disso as goiabeiras já estavam sem uma única fruta.
A goiabeira ficava na rua detrás do cemitério, e alguns galhos acima tinha-se a vista interna do mesmo. A visão era assustadora e os meninos procuravam “limpar” os galhos o mais rápido possível. Não queriam estar ainda sobre ela quando caísse a tarde. Histórias diversas sobre aquele cemitério eram conhecidas por todos; passadas de gerações em gerações e revitalizadas de tempos em tempos com novos casos.
Dunga comentou sobre Hipólito, o menino que desaparecera sem nunca mais ser encontrado, após ter entrado naquele cemitério numa noite. Conta-se que o garoto corria atrás de uma pipa que caíra lá dentro.
Potter lembrou então da Dona Amália, que ficara louca após terem-na esquecido trancada dentro do cemitério. Ela havia se perdido; primeiro nas suas orações, e depois em achar o caminho de volta à entrada do lugar. Na manhã seguinte acharam-na feito um zumbi, a esmo, perambulando entre as covas, sem rumo e não dizendo coisa com coisa.
Zé lembrou do caso do Geremias; um mendigo que fôra enterrado como indulgente, e que assombrou várias pessoas durante semanas! Conta-se que pedia sua cabeça de volta aos visitantes do cemitério. Foi necessário a mulher do delegado chegar num certo dia em casa tremendo e branca feito cera, para que se fosse investigar a história toda. Desenterraram o defunto e descobriram que haviam mesmo lhe roubado a cabeça. As investigações apontaram para a universidade da cidade, onde recuperaram o crânio do Geremias num laboratório de medicina legal.
Iam comendo, conversando e distraídos se esqueceram da hora! Foi quando um gato preto passou a frente deles sobre o muro do cemitério, que despertaram para a escuridão que já se formava.
Resolveram interromper a comilança e descer de imediato. Foi quando Potter avistou algo!
- Caraca! Olhem Lá! – Gritou Potter apontando para dentro do cemitério. Seus olhos arregalados e fixos indicavam de forma mais precisa, do que o seu trêmulo dedo indicador tentava faze-lo.
O olhar dos demais encontraram-se no mesmo ponto; o apontando por Potter! E como hipnotizados ficaram por alguns segundos até que a gritaria foi total.
(Continua)



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