A Turma
Eram vizinhos a mais de anos; não tantos, o mais velho dos garotos devia ter uns 14 anos, e mesmo assim na hora da pelada era sempre aquele alvoroço.
Quem escolhe os times? Com a bola de quem vão jogar ? Pode ou não jogar calçado ? Essas dentre outras questões estavam sempre em pauta e nunca definitivamente eram resolvidas. No fundo fazia parte do cerimonial, e pular esse bafafá todo seria impensável.
Carlos era da torcida por quórum insuficiente, quando então não havia outra opção de escolha e ele podia jogar, do contrário era sempre o gandula. Outra situação era não haver quem quisesse ficar no gol, quando ele acabava sendo escolhido mesmo no início das seleções dos times.
Naquele dia seria diferente, não havia outra bola disponível, a única era uma “meia-boca”, semi-descosturada que Carlos encontrara dias atrás. E o dono da bola nunca ficava de fora, tendo mesmo em algumas situações a prerrogativa de ser um dos capitães e direito a selecionar um dos times.
Franco era o craque da rua, habilidoso e fome de bola por natureza, sempre a primeira opção quando se escolhia os times. Mas o tanto que tinha de técnica com o domínio de bola, não tinha nos momentos das conclusões, era mesmo um expert em perder gols cara a cara com o goleiro.
Clóvis o magricela era estabanado, seus movimentos desengonçados faziam dele uma figura patética em campo, sua marca registrada era a falta de habilidade. Caneladas à parte, era no entanto quem melhor pontaria tinha ; o artilheiro da rua. A explicação podia ser pelo fato que enquanto os outros meninos passavam seu tempo praticando controle, embaixadinhas e dribles, Clóvis gostava de chutar a bola de tudo que era distância do gol, sempre praticando faltas e cruzamentos, era a companhia costumais de Passos, o goleiro por escolha.
Passos era o mais velho do grupo, recém feitos, seus quatorze anos não refletiam seu porte que mais sugeria alguém por volta dos dezesseis. Rapaz calmo com uma timidez resolvida e só jogava se fosse no gol. Adorava sua indumentária; luvas, tornozeleiras, joelheiras e boné. Era o único que nunca jogava descalço, era isso ou ficava de fora. Sempre o aceitavam com as chuteiras.
Henrique era o falador do time, mais falava do que jogava. Mas sempre se achava com a razão, e era o reclamador oficial da turma.
- Passa a bola ! Lança lança ! Rápido tô livre ! Aqui vai vai manda !- Era o vocabulário típico de Henrique, partida após partida.
Esse gênio era o responsável por quase sempre haverem farpas entre Henrique e Franco. Henrique se martirizava toda vez que Franco prendia a bola e tentava fazer tudo sozinho. Se perdiam, então era motivo para ouvi-lo a semana inteira a remoer a culpa que Franco teve no resultado.
A Rivalidade
No entanto dissabores à parte, tudo era dentro da quadra; se é que se pode assim chamar os campos que enjambravam. Alguns nem traves tinham, essas eram delimitadas por chinelos, camisas ou que quer que servisse a esse fim.
O que não era permitido, tolerado ou cogitado, era uma derrota pra turma da Candelária. Isso era pior do que o fim do mundo. Podiam até ficar em último lugar nos campeonatos, mas era melhor do que perder para seus rivais do bairro.
A rivalidade entre essas turmas superava a do clássico carioca Vasco e Flamengo. Dividia a rua em duas torcidas ferrenhas, formadas por amigos, pais, colegas de escola e demais moradores da rua. Era quase uma avenida.
Era também a rixa entre os dois colégios do bairro, alunos de um, não jogavam no time que os do outro colégio jogavam. A rivalidade era tanta que para não amargurar uma derrota, quase não havia partidas entre eles. E quando havia... era um clima de guerra.
O Confronto
Naquele mês, no entanto, havia o torneio Intercolegiais! Dos quais participavam os melhores times dos colégios da cidade. Ficar de fora era inaceitável, apenas jogos pela Copa do Mundo tinham importância similar.
Ambas as equipes se inscreveram; e diferente das edições anteriores, em que não se cruzaram uma única vez, nesta eles por sorteio estavam na mesma chave. E de cada chave apenas uma equipe seguiria adiante.
Não bastasse a dor de perder, que por sí só já era incomensurável, ser eliminado da competição pelo seu arqui-rival seria uma viagem ao purgatório com destino assegurado às trevas.
(Continua)

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