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domingo, 9 de janeiro de 2011

A Bola da Sorte - Parte 4

Sem Opção




O entusiasmo foi a primeira reação que esboçaram após o susto; logo veio a insegurança seguida pela incerteza e por fim estavam receosos.

Aquilo que mais queriam, que há dias vinham desejando, estava agora bem a frente deles! Depositada sobre uma das lápides, uma bola! Parecia nova; ou senão, muito bem conservada. Como teria ido lá parar? Ninguém joga bola perto do cemitério, teriam-na esquecido?

A questão agora era quem desceria lá para pega-la? Ou correriam o risco de não a encontrarem mais lá no dia seguinte.

Goiaba foi direto:

-Sozinho não vou nem a pau! – Quando empacava feito mula, não havia quem lhe convencesse do contrário.

Seu primo concordou, e sugeriu:

-Vamos todos! Descemos juntos, pegamos e voltamos. É só uma bola!

Tomaram outro forte susto quando ouviram do nada uma voz!

-Oh vocês! O que que está pegando aí? – era Preto, que passando notou a turma aos cochichos sobre a árvore, e resolveu se juntar-Também tô nessa, tô subindo!

Quando o puseram à parte das intenções, Preto se arrependeu da ideia que teve em se juntar à turma, agora não tinha outra opção senão encarar a missão.

Dos galhos em que estavam para o alto do muro era manobra fácil, e logo estavam todos de pé sobre o muro, andando em direção a uma pequena estátua, na forma de um anjo deitado, que lhes serviria de degrau, ajudando-os na passagem do muro para o interior do cemitério.

A visão daquele ângulo era bem diferente, tinham menor alcance visual e nem mesmo sabiam direito onde a bola estaria. Do alto da árvore contemplavam uma região bem ampla, lá de dentro, - embaixo- os túmulos, mausoléus, estátuas dentre outros obstáculos, lhes impediam de olhar mais do que alguns poucos metros em qualquer direção.

Resolveram se separar, assim procurariam em mais lugares ao mesmo tempo, e poderiam sair logo dalí.

Goiaba e Zé tomaram o corredor da direita; Dunga e Potter o da esquerda, sobrando a Preto caminhar no corredor à sua frente.

Poucos minutos se dera desde que se separaram, quando um gato preto assustado com a súbita presença de Goiaba e de Zé, debandou às pressas! – não sem antes soltar um forte miado de susto- chocando-se mais a frente com um pequeno vaso de vidro.

Preto que não se sentia nada corajoso em andar àquela hora da noite num cemitério sozinho, procurava andar sem fazer barulho com os pés, quase não respirava direito, - a quem estaria ele evitando despertar a atenção?- e então um vulto preto se moveu à sua direita, ele não teve tempo de ver que era apenas um gato. O bichano estava correndo e naquela escuridão passava por uma sombra fugaz.

Não bastasse ter tido a impressão de ter visto um vulto, o barulho do vaso se quebrando logo em seguida, fez desaparecer a cor da sua face. Sua tez ficara branca e aos berros se pôs a correr desfreadamente aos gritos!

Seus gritos gelaram o sangue dos demais, ainda em suas buscas pela bola!

Goiaba quase teve uma congestão! Sentiu como se alguns quilos das goiabas em processo de digestão fossem reverter sua marchar e saíssem em golfadas goela à fora! Cerrou os dentes e apertou os lábios para garantir que o vômito não viesse à tona!

Zé por sua vez nem tomara nota da agonia do primo; disparara a correr corredor à direita!

Enquanto Preto já estava descendo pela goiabeira sem olhar para trás, foi a vez de Dunga e Potter se assustarem com um vulto que vinha em sua direção! Os dois arregalaram os olhos e soltaram um grito de pavor, se pondo logo em seguida a correr desesperados pelos corredores entre as lápides.

Era apenas o pobre do Zé, que felizmente os reconhecera, e pôs-se a correr atrás deles! Mas estava tão assustado que não conseguia gritar ou pronunciar som algum, sua garganta estava seca e emudecera completamente pelo pavor que sentia naquele momento.

Sentindo-se seguidos, Dunga e Potter quase alçaram voo, tão rápido estavam! Nem mais olhavam direito para onde iam, em sua fuga foram quebrados alguns vasos, lápides pisoteadas e por fim se viram no interior de um mausoléu; sem saída, presos e com seu algoz perseguidor prestes a lhes pôr as mãos encima – ou algo pior.

Instintivamente se abaixaram, e torceram para escapar. Seus corações no entanto parecia soar forte feito um tambor! Estavam agachados atrás do túmulo central do mausoléu, quando notaram os passos que os perseguiam pararem à entrada do mausoléu!

Era no entanto apenas o sem fôlego do Zé! – sem voz, e sem cor.

Na tentativa de se anunciar, Zé piorou ainda mais as coisas! Sua voz fraca, imperceptível, quase inaudível, fôra forçada tentado se fazer ouvir. O resultado foi desastroso! Um som gutural saiu de sua boca, sequer parecia um som humano. Detrás do túmulo e em desespero, tentando se salvarem de qualquer forma, Dunga e Potter emergiram violentamente em direção à entrada e com os braços à frente dos rostos atropelaram o coitado do Zé!

Os três como resultado do choque, estavam agora caídos no chão; olhos arregalados a se olharem uns aos outros, mudos e respirando com muita dificuldade.

Demorou, mas se recompuseram e trataram de procurar a saída. A bola não parecia mais valer tanto à pena. Lembraram-se que Goiaba devia estar ainda no cemitério, mas poderia também já ter-se ido, como saberiam? Não iriam ficar para descobrir.

No retorno porém deram sorte, deparando-se com a bola a poucos metros deles. Sobre um túmulo muito bem cuidado. Ainda lhes restavam um pouco de coragem, eram só uns poucos passos...

A surpresa foi grande quando viram o nome exibido na lápide! Ali jaziam os restos mortais do famoso Pipoca! O maior artilheiro do futebol brasileiro e tido como o inigualável, aquele que jamais seria superado por nenhum outro, tamanha era sua superioridade em vários aspectos técnicos.

Pipoca conquistara todos os grandes campeonatos que disputara, - Copa do Mundo, Mundial de Clubes, Brasileiro, -sem contar nos vários títulos Estaduais que o Vasco da Gama; clube que representou por toda a vida, conquistara por anos seguidos- recebera os mais valiosos prémios e condecorações que um jogador poderia receber. Exímio armador, lançava a bola com precisão “cirúrgica”, e criava as jogadas do time como se fosse um artista, um maestro em campo! Nas conclusões era o “Impiedoso”! Guardava sempre a bola nos fundos da rede, por mais que os goleiros adversários se esforçassem, ou mesmo clamassem por milagres; não havia choro que impedisse Pipoca de concluir sempre suas finalizações em gols! Quando ele partia em direção ao gol, toda a arquibancada se levantava, anteviam o que viria, alguns já se punha a gritar gol mesmo segundos antes do craque chutar a bola.

Ficaram boquiabertos! Atônitos encarando a lápide que lhes revelava a importância daquele túmulo. Por alguns instantes haviam mesmo se esquecido da bola, quando Dunga falou:

- Essa bola... deve ser presente, oferenda de fã. Não vou pegar ela não, pode ter maldição nisso! Tipo aquelas histórias das múmias egípcias! Eu não pego!

Zé que havia recuperado a voz, engoliu seco e lançou um furtivo olhar de esguelha à Potter; que não o encarou. Então pôs-se diante da bola e disse:

- Vamos no sorteio! Quem perder pega a bola, e não vale voltar atrás! – Dito isso fixou os olhos em Dunga que ainda relutava em ir contra seus temores.

Foram para o zerinho ou um; forma simples que usavam até para decidir quem escolheria os times, quem ficaria de fora do time ou outros impasses. Não tinham opção!

Os três juntos em uníssono – Zerinho ou Um!

(Continua)

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