Passara aquela semana toda imerso nos estudos, revendo aberturas e treinando táticas e finais. Minha preparação nunca estava satisfatória, sempre me cobrava mais e mais, era mesmo difícil saber quando parar. Muitas vezes só o fazia por intermédio de minha mãe, me chamando à mesa para uma das refeições, ou por que já estava caindo de sono.
A preparação se devia ao confronto ao qual me depararia na manhã seguinte. Meu adversário tinha um saldo de uma vitória sobre mim, isso em cinco partidas já realizadas entre nós. Todas as outras ficaram em meros empates.
Naquela noite titubeei entre me estender mais algumas horas noite afora ou ir mais cedo para a cama e descansar o máximo possível para a batalha que enfrentaria. Optei pela segurança, não queria que a falta de concentração me levasse à lona, nem que o cansaço me tirasse a energia necessária para um final longo, mas vencedor.
O local escolhido para o embate foi a biblioteca do colégio, onde o silêncio era mantido por regras e pela presença de Dona Julieta, que era rígida em manter tudo dentro do regulamento. A mesa central fora reservada com antecedência e o número de pessoas à sua volta já dava a ideia da importância da luta que estava prestes a se iniciar.
Meu café da manhã havia sido leve; cereais, uma vitamina de mamão com maçã e uma fatia de pão integral besuntado em mel. Saíra satisfeito da mesa e rumei a pé pelas ruas ao colégio, caminhando com um olhar distante, vago. Naquele momento me espirito já havia se adiantado e estava sentado na mesa central da biblioteca, refletindo sobre os principais pontos que não poderiam ser esquecidos durante a partida.
Fisicamente ao caminhar naquela manhã, eu o fazia como se fosse um zumbi, marchando compassivamente, alheio a tudo ao meu redor. As casas, as pessoas pelas quais eu ia passando nesse ínterim eram meros vultos, sem som ou cor. Eu estava longe, não poderia mesmo notar o que quer que estivesse à minha volta.
Meu adversário era membro de um clube da cidade, acostumado a torneios, contava com o apoio de um professor que o vinha instruindo já há alguns meses. Seus resultados não eram os melhores, ele tinha o estilo do Tigran Petrosian, o rei dos empates, e assim se por um lado tinha poucas vitórias, por outro, tinha menos derrotas ainda.
Lá estava ele sentado ao tabuleiro à minha espera e confabulando com seu técnico; o professor que sempre lhe assistia. Ambos verificavam o relógio e acertavam seus ponteiros. As planilhas de anotação já se encontravam sobre a mesa.
Ao entrar, meu espirito juntou-se a mim numa recepção digna de reis. Então me vi novamente ciente dos meus modos sociais, cordialmente cumprimentei a todos, e sentei-me à mesa após apertar a mão do meu adversário.
O sorteio me deu as brancas! Eu conhecia um pouco do repertório do meu adversário, sabia o que iria jogar e antes mesmo de mover a primeira peça, já estava torcendo para que ele entrasse em algumas linhas de algumas de suas partidas anteriores. Minha preparação caseira poderia me dar uma vantagem já na abertura se alguns dos erros que ele cometera antes não tiverem sido corrigidos.
As peças no tabuleiro iam uma após outra movendo-se dentro do esperado, seguindo a teoria das aberturas, sem a necessidade de muita reflexão de nenhuma das partes. Em alguns lances, houve uma hesitação; que variante seguir?
Por um lado, havia uma variante em que poderia leva-lo a tentar seguir como o fizera há poucos meses num torneio estadual. Se ele assim o fizesse, incorreria no mesmo erro e não teria a mesma sorte. Naquela altura vencera a partida contra um adversário mais forte. Mas a análise posterior da partida mostrou-me como aproveitar com vantagem da posição resultante da continuação que ele escolhera.
Por outro lado, aquela posição só se dera devido a um movimento fraco que seu adversário fizera um lance antes. E se eu propositadamente jogasse o mesmo lance fraco, na esperança de que ele incorresse na mesma continuação e ele desta vez conhecesse a melhor continuação?
Eu sabia o que jogar; ao menos qual seria o melhor lance na posição. Mas psicologicamente a escolha seria por um lance mais fraco.
Nessa dúvida, fiquei por minutos a fio em cogitações, ponderações e análises que me amparassem a buscar pelo menos um empate caso ele respondesse corretamente ao meu lance psicologicamente correto, mas as continuações vislumbradas não me agradaram.
Eu poderia transformar um erro antigo do meu adversário no fator que o levaria à vitória desta vez. Porque teria eu de jogar um lance fraco para tentar a sorte? O certo seria esperar que ele jogasse um lance fraco, e então tirar proveito. Até que ponto deveria trocar o certo pelo duvidoso?
Enveredei então pela linha correta, dei continuidade à partida e observei discretamente as reações do meu oponente. Ele demonstrou que esperava por outro lance, suas feições eram de intrigado frente a uma nova situação. Mas não creditei confiança na sua interpretação; quanto de dramaticidade teatral haveria naquele semblante? Pura encenação? Bem possível!
Decidi que não erraria à custa de ser castigado pela continuação correta, blefar não seria mais uma opção, deixaria isso para as partidas de pôquer.
O silêncio era ruidoso à nossa volta, os movimentos dos corpos no ambiente, o arrastar de cadeiras e até o virar de páginas da Dona Julieta eram sentidos como se estivessem numa escala muitas vezes ampliada. Uma mosca a certa altura brindou-nos com sua inoportuna presença. Todos se moveram para afasta-la da mesa; gestos de mãos de todos os lados, e vencida a mosca bateu em retirada.
Eu sentia que poderia transformar a posição numa linha vantajosa, mas não encontrava artifícios táticos que me impelissem numa direção. Deveria trabalhar estrategicamente a posição e procurar criar fraquezas para o meu adversário. Se bem sucedido, tais fraquezas permitiriam quem sabe um sacrifício ou um tema tático vitorioso. Havia sim um bem estar com o desenrolar da partida, mas se de fato era real; justificado, então deveria haver alguma fraqueza já instalada no jogo do meu adversário, mas qual?
Após seus lances ele sempre me fitava demoradamente, quem sabe para criar alguma pressão emocional, quem sabe meramente tentando ver a direção dos meus olhos, e captar dessa forma se eu teria compreendido a razão por trás do seu lance.
Eu retribuía ao meu modo, mantendo os olhos numa direção enquanto investigava o outro lado do tabuleiro, - gravado em imagem perfeita em minha mente- era como se dissesse a ele:
– Vou mover alguma peça deste setor! –
E assim o punha a calcular as possíveis respostas aos meus lances mais prováveis, o entretinha em cálculos por determinado tempo, até que por fim olhava na real direção em que havia estado analisando por vários minutos; transparecia meditar sobre a posição e logo depois movia nesse setor uma peça.
As peças velavam intenções e ideias, e politicamente negociavam espaço e influência. Minhas intenções não eram as de um diplomata, mas muito menos as de um bárbaro. Me via como um general comandando suas tropas, não com o fim de poupa-las; mas de leva-las à vitória! Mesmo que à custa de muitas vidas.
O relógio implacável, frio e imparcial era também um elemento crucial na partida. Não obstante a necessidade da correta condução das peças, se fazia igualmente necessária a maestria na administração do tempo. Era como um vício, uma dependência; quanto menos o tínhamos mais necessitávamos.
Mas o tempo não pára, e naquela partida não foi diferente. Embora eu não pudesse irromper em desfechos brilhantes que me conduzissem á vitória, pude no entanto calcar lance a lance vantagens posicionais que fizeram meu adversário passar a consumir mais tempo em suas jogadas. Com isso eu tinha mais uma vantagem, o relógio a meu favor. Com cerca de vinte minutos a mais no tempo, resolvi buscar complicações antes que o lance pelo controle de tempo fosse alcançado. Restava ao meu adversário dez lances, que deveriam ser feitos em dez minutos, quando chegaria aos quarenta lances jogados e obteria mais tempo para prosseguir.
Complicações, eu precisava de complicações. Mas não poderia ser uma roleta russa, apenas as necessárias para ampliar minhas vantagens. Com superioridade na ala da Dama, e com um peão passado, o fato do Rei adversário estar mais exposto não me fazia dirigir as ações contra ele. Ao contrário, busquei insinuantemente manobras contra o monarca preto, apenas para melhorar minha posição na outra ala.
O final prometia ser totalmente favorável às minhas peças! Desisti de encontrar complicações, e tratei de evitar possíveis manobras de meu adversário para lograr êxito num empate.
Com a prática que tem, advindas das noitadas em que joga “pings” – blitz- em seu clube, meu adversário facilmente me superaria nesse ritmo de jogo. Mas felizmente eu tinha uma larga margem de tempo a mais, e não lhe dei esse prazer. Ainda assim ele usou de sua experiência para alcançar os quarentas lances.
Tão logo ganhara mais tempo em seu relógio, sua disposição mudou e impetuosamente buscou trocar peças! Era uma manobra simples, para diminuir minha atividade no tabuleiro, porém lógica e que poderia surtir efeito.
Estava confiante, lance após lance, pressentia a vitória, embora para muitos ao redor pudesse parecer o contrário, em virtude de estar com dois peões a menos!
Se entrasse no jogo dele e facilitasse as trocas das peças, ainda assim teria um final a meu favor, mas com um grau de dificuldade maior. Possivelmente ele equalizaria o consumo do tempo enquanto eu buscasse a conduta correta das peças. Isso era o que ele deveria supor.
O professor Adilson - de literatura- chegara para acompanhar a partida, colocando-se entre os demais espectadores e segurando numa das mãos um livro que naquele momento não pude ver a capa. Ele jogara algumas vezes comigo, era ótimo parceiro e excelente em finais. Sua mania era dar prosseguimento em partidas de GMs – Grandes Mestres- quando o jogo já se encontrava na fase final. Ele reproduzia as posições de tais partidas e se punha a jogar contra o computador. Para ele o final era a alma do jogo, quando se usa menos memória e mais raciocínio.
Bastaria uma olhada de vesgueio em sua direção, e saberia se minha confiança tinha ou não razões concretas. Não foi por acaso que ele chegara apenas naquele momento, seu interesse era apenas em acompanhar o final da partida.
Devo confessar que a técnica do professor Adilson me interessara, e já há alguns meses vinha praticando-a também. Jogando finais contra engines aprendi muito, e passei melhor a orientar minhas peças no meio do jogo.
Meu adversário não mais me encarava após seus lances, e tão logo notei essa mudança de atitude, não pude conter um sorriso maroto; discreto mas perceptível. Passei então ao revés das personagens, e passei a fita-lo demoradamente após cada lance que ia executando. Sua indiferença era apenas aparente, podia sentir seu interior se debatendo em fúria, sua fisionomia calma escondia um vulcão ativo, em vias de entrar em erupção.
Passou a jogar mais rápido, iria tentar por me no apuro do tempo? Talvez conseguisse, pois meus lances vinham arrastados em longos minutos, nas sombras de cadeias de peões, cálculos de oposição e tempos de promoções. Não queria simplesmente errar por último!
De fato a certa altura ele já tinha cinco minutos a mais e no ritmo com que vinha jogando a tendência era ampliar ainda mais essa vantagem.
Foi então que veio o sacrifício do cavalo, uma peça a menos além dos dois peões! E a marcha rumo à oitava linha se fez por ambas as alas. Rei e cavalo eram insuficientes para deter ambos os avanços, e com uma cadeia de peões inferior, a superioridade numérica de peões pretos se mostrou inútil.
Naquele momento o alvoroço reinava na biblioteca, e pude mesmo ouvir comentários sobre minha infeliz derrota, dada como certa por uns capivaras que se baseavam apenas nas peças a menos do meu lado. Ainda assim a plateia se mantinha acompanhando o desfecho da partida, Dona Julieta nunca vira tanta gente na biblioteca antes e estava um tanto perdida frente aquela situação.
Finalmente meu adversário decidiu-se por interromper aquela tortura, em quatro movimentos - deitou seu rei, levantou-se e cumprimentou-me, saindo em seguida seguido pelo seu técnico- selara o fim do clima até então reinante no local, o alvoroço fez-se instantaneamente e a notícia correu tão rápida que pouco depois lá estava o diretor do colégio, conferindo o acontecimento – um aluno seu derrotando um atleta do clube municipal- e elogiando D. Julieta pela colaboração.
Essa simples partida seria o pivô de futuras mudanças; que vieram de forma natural pouco tempo depois.
No colégio o xadrez virou disciplina escolar e o clube da cidade doou alguns livros, relógios e chess sets ao colégio. Como resultado os praticantes aumentaram; muitos buscando melhorar suas técnicas se associaram ao clube da cidade, e a adesão aos torneios promovidos pelas várias organizações cresceu exponencialmente, levando centenas de adeptos aos torneios.
Bom... agora voltarei aos treinos, hoje o tema é uma variante da siciliana, jogarei pela internet várias partidas obrigatoriamente iniciadas pelos lances que caracterizam essa abertura.
Quem sabe nos encontremos qualquer dia desses para uma partida?


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